Dica de Filme: Sicario: Terra de ninguém

O diretor Dennis Villeneuve fez fama graças a dois filmes bastante cultuados e tensos: Incêndios, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011, e Os Suspeitos, com Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal. Em plena ascensão na hierarquia hollywoodiana, Villeneuve trouxe ao Festival de Cannes seu trabalho mais ambicioso: Sicario. Se por um lado o diretor mais uma vez brilha na construção do clima tenso necessário à história, por outro falha ao manipular escancaradamente a trama, de forma a facilitar o roteiro do estreante Taylor Sheridan.

A história gira em torno da agente do FBI Kate Macy, que logo de início participa de uma operação onde descobre, escondidos atrás das paredes de uma casa, dezenas de corpos. Sua dedicação e revolta diante da situação faz com que seja convidada a integrar uma equipe multi-organizacional, que tem por objetivo capturar um chefão do crime mexicano. É quando, aos poucos, Kate percebe que sua crença no que prega a lei nem sempre é levada tão ao pé da letra assim.

Situado nos dias atuais, ou seja, sob a influência dos atos pós-11 de setembro nos Estados Unidos, Sicario aborda com propriedade a postura norte-americana de fazer justiça a todo custo, sem se importar com os meios necessários. A representação maior deste ideal pós-George W. Bush é o personagem de Josh Brolin, sempre debochado em relação às constantes menções de Emily Blunt sobre o que é correto ou não de ser feito. Na verdade, a função maior de Blunt no longa-metragem é justamente ser este contraponto moral, que a todo instante relembra os demais personagens (e o espectador) sobre o contexto envolvido. Por mais que esteja sempre participando diretamente dos principais fatos ocorridos, ela não é de fato essencial para que os mesmos aconteçam. Tamanha irrelevância é parcialmente corrigida na reta final, quando surge uma justificativa burocrática para sua presença. Mas, ao analisar a grandiosidade de todo o planejamento e o que envolvia, fica difícil acreditar que apenas isto seja suficiente para trazê-la à operação.

Independente desta questão, Sicario incomoda por, em algumas cenas, manipular claramente o espectador. Seja através de estereótipos envolvendo o povo mexicano ou, principalmente, na cena do engarrafamento, onde os bandidos são facilmente reconhecíveis. Tal obviedade auxilia o roteiro, já que não é necessário um esforço maior para situar os vilões da história, mas também o simplifica bastante. Para um filme que conta com uma grande operação silenciosa ocorrendo nos bastidores, posteriormente revelada com toda a pompa necessária, trata-se de um detalhe que incomoda justamente por ser considerada menor diante do todo, como se os próprios vilões enfrentados tivessem menos importância. Na trama até têm, mas na contextualização não.

Por outro lado, é importante louvar o belo trabalho técnico da produção. Dennis Villeneuve já provou em seus filmes anteriores que sabe dirigir momentos de tensão, e aqui mais uma vez comprova esta característica. As sequências da invasão pelos túneis e a do próprio engarrafamento são de tirar o fôlego, e contam com a ajuda do belo trabalho feito pelo diretor de fotografia Roger Deakins e do compositor Jóhann Jóhannsson. Outro destaque do longa-metragem é o elenco, especialmente Emily Blunt e Benicio del Toro. Por mais que até seja um personagem latino que é até parecido com os por ele interpretados anteriormente, del Toro brilha pelo seu característico olhar abrutalhado de raiva.

Com um todo, Sicario é um bom filme. Tecnicamente bem feito, bem interpretado e bem dirigido, trata com competência as dúvidas morais existentes na atual conjuntura política e diplomática orquestrada pelos Estados Unidos. Entretanto, certas falhas de roteiro fazem com que o filme, que tanto fala da dubiedade moral nos Estados Unidos, também assuma uma postura questionável perante o próprio universo que apresenta, como se ele próprio também tivesse algo a mascarar.

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