Dica de filme: De volta ao jogo

De Volta ao Jogo é um filme que se apresenta de duas maneiras muito distintas ao espectador. A primeira delas, predominante nos 30 minutos iniciais, sugere que estamos diante de um filme de ação sério, sobre o antigo matador de aluguel John Wick (Keanu Reeves), que perdeu a esposa e passou a cuidar com grande carinho de um cachorro que ela lhe tinha oferecido como presente. Até o dia em que o filhotinho é assassinado, levando o sangrento John Wick a retomar as armas e matar dezenas de pessoas para honrar a lembrança do animal – e da esposa, por associação.

Esta primeira parte estabelece uma série de absurdos que beiram o patético, mas nunca atravessam a fronteira da comédia. John Wick trabalhava para a máfia russa de Nova York, o cachorro é morto acidentalmente pelos mesmos mafiosos. Ele assassinou centenas de pessoas no passado, mas quando decide se aposentar durante o período de luto, não é incomodado por ninguém. Durante um acidente, enquanto está jogado nas ruas, coberto de sangue, ele retira o celular do bolso e assiste a um vídeo amoroso da esposa, enquanto gotas de sangue escorrem na tela do aparelho. O personagem é um perito ao volante, e às vezes se exibe ao público fazendo manobras sozinho em um grande terreno, sem motivo aparente (estaria expiando a dor do luto?).

Então, lá pelos 30 minutos, um policial entra na casa de John Wick, logo após o protagonista liquidar uma dezena de matadores dentro de sua casa. O policial observa os cadáveres e outros homens agonizantes no corredor, pergunta se Wick está trabalhando de novo, e diz que não pretende incomodar. “Boa noite, John”, responde o policial, e vai embora. A partir deste ponto, De Volta ao Jogo passa a assumir o seu lado cômico. A produção nunca se transforma em uma paródia ou caricatura, mas ela permite ao público assistir à história de maneira despretensiosa – afinal, os próprios personagens não se levam a sério. Esta leitura mais leve serve melhor ao espectador que conseguir abandonar o desejo de realismo e aproveitar a demonstração de testosterona na tela.

Keanu Reeves contribui muito à sensação de um filme de ação diferente dos demais. O ator, conhecido pela pouca expressividade, está distante das caras e bocas de Nicolas Cage, por exemplo, quando tenta demonstrar raiva ou tristeza. Reeves também tem o corpo mais franzino que outros astros de ação como Vin Diesel e Jason Statham, tornando engraçado que este homem aparentemente calmo, apático e magro seja o grande terror de todos os vilões da cidade. A história se diverte construindo o mito John Wick, com dezenas de personagens ressaltando a importância dele: “Você sabe com quem você mexeu? Aquele homem é John Wick! Ele vai te perseguir e te matar!”, “Meu Deus, John está de volta? Não é possível!”, “Eu conheço as suas reuniões de trabalho, John, alguém sempre termina morto”, e assim por diante. Então a câmera ironicamente se vira para o sujeito de aparência zen, afagando seu cachorrinho.

Uma grande surpresa em De Volta ao Jogo é a violência das cenas de ação. Ao contrário das produções recentes em Hollywood, repletas de mortes sem sangue (Os Mercenários 3 ganhou a branda classificação 13 anos, por exemplo), esta produção aposta em cenas cruas de tiros à queima-roupa, facas enfiadas na jugular e litros de sangue jorrando para todos os lados. Não é todos os dias que se vê um herói metralhando um padre dentro da igreja, ou dando tiros no rosto de seus adversários. Mas John Wick corresponde ao típico fora da lei dos filmes B de antigamente, do tipo que não serve de lição para ninguém. Ele é tão cruel quanto os homens que mata, tornando-se um misto interessante entre herói e anti-herói.

Outro fator a destacar é a direção, comandada pela dupla de dublês profissionais David Leitch e Chad Stahelski, ambos sem experiência prévia como diretores. Eles não criam grandes momentos de cinema, mas tornam as lutas mais eficazes e empolgantes do que na maioria das produções recentes, incluindo ótimos tiroteios dentro de um quarto e brigas bem coreografadas no subsolo de um hotel. Os planos são mais abertos e a edição é menos fragmentada do que nas produções típicas do gênero, tornando o espetáculo mais físico e brutal. De Volta ao Jogo conquistou uma classificação etária alta nos Estados Unidos, e foi proibido aos menores de 18 anos no Brasil, o que vai reduzir a perspectiva de sucesso nas bilheterias. Mas é interessante ver um filme destes, fiel aos clichês do gênero até o limite do risível, abrindo mão do seu potencial comercial para caprichar na carnificina. O público adulto agradece.

FONTE: ADOROCINEMA

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